Bem e mal ou bem ou mal? Melhores Leituras de 2016

2016 foi marcado por desastres, mortes, crises e destruição. Mas em meio as tempestades também ocorreram calmarias, que aparentemente esquecemos, porque é da humanidade dá destaque aos males e as maledizências. Parece que  na nossa memória sobressai as tristezas, as catástrofes. Será que é preciso um furacão que arranque nossas raízes, para que abramos os olhos? Não poderíamos aprender com os dois lados da moeda? 

Quando criança implantam nas nossas mentes que existe o bem e o mal e que geralmente está personificado em um só ser, o antagonista e o protagonista, respectivamente bem e mal, porém lá vem o crescimento e nos choca perceber que as pessoas são mais difícieis de entender do que nos ensinaram, e o mundo é igualmente complexo. São múltiplas faces em um só ser, até para a matéria existe a antimatéria; nada é tão simples. 
E Por causa da redoma de ilusões que criaram a nossa redor, é difícil deixar pra trás a perspectiva infantil; parece impossível fugir dessa jaula, entretanto como seguir em frente se escondendo da verdade? 

                
          A criança cresceu
            O sonho se foi...
                   Comfortably Numb by Pink Floyd
      


E o que afinal nos constrói ? Pessoas, objetos, momentos? Lembranças são constituídas desses tijolos? O que constitui nossos vários eus? O que somos agora adveio do nosso eu passado? 

No dia 31 de dezembro muitos são os pensamentos e regressões do passado que veem a nossa mente e provavelmente é o dia que as pessoas mais refletem e decidem mudar. E essa é uma das causa da minha introdução, pois eu fiz um balanço das minhas melhores leituras e irei comentá-las,  recomendo-as. 





Este ano moribundo se esvai com seus diversos lados, tanto para o que já comentei, quanto para as leituras, tantas e variadas, de má e boa qualidade. Além disso foi o ano que mais comprei livros: 14!  Um ano extremamente paradoxal. 





A Jangada de Pedra e Ensaio sobre a cegueira

Foi um prazer ler José Saramago pela primeira vez, um autor com humor tão sargaz e de conhecimento tão vasto. Por exemplo, em A Jangada de Pedra por causa de um caso específicico de um personagem perseguido por pássaros, ele faz referência ao filme do emblemático diretor Hitchcock. Além de tudo, seus livros apresentam acontecimentos impossíveis de imaginar: uma jangada de dois países que se separaram da Europa, Portugal e Espanha, e uma cegueira branca contagiosa sem explicação científica. E claro, uma trama tão reflexiva que é capaz de tirar nosso sono.

http://thalyalee.blogspot.com.br/2016/09/leituras-desafiadoras.html 


O Crime do Padre Amaro

Eça de Queiroz faz uma dura crítica ao fanastimo religioso e a religião em si, com alusões a inquisição e a hipocrisia dos clérigos, personificadas no padre Amaro, que seduz uma moça crente e ingênua, e ademais padres de uma mesma localidade. 


"Lamentava não poder acender as fogueiras da Inquisição! - Assim aquele inofensivo moço tinha durante horas, sob a excitação colérica duma paixão contrariada, ambições grandiosas de tirania católica: - porque todo o padre, o mais boçal, tem um momento em que é penetrado pelo espirito da Igreja ou nos seus lances de renunciamento místico ou nas suas ambições de dominação universal: todo o subdiácono se julga uma hora capaz de ser santo ou de ser papa: não há seminarista que não tenha, durante um instante, aspirado com ternura à caverna no deserto em que S. Jerônimo, olhando o céu estrelado, sentia descer-lhe sobre o peito a Graça, como um abundante rio de leite: e o abade pançudo que à tardinha, à varanda, palita o dente furado saboreando o seu café com um ar paterno, traz dentro em si os indistintos restos dum Torquemada." 




Frankenstein

Uma noite fria e chuvosa e um desafio entre amigos. Pegue esses ingredientes e junte a genética filosófica da família onde Shelley nasceu e pronto! Será assim que se criou esse romance tão conhecido que apresenta as buscas do ser humano? Isso tem cara de haver um dedinho da criatividade...

“Descobri como e porque a vida é gerada. Mais impressionante ainda: tornei-me capaz de dar vida à matéria inanimada – de transformar a morte em vida.” 

Perto do Coração Selvagem e A Maçã no Escuro

Sou fã de Clarice Lispector desde que li alguns contos, e já devo ter comentado isso em algum post. Ela entra fundo em questões psicológicas tão simples, mas ao mesmo tempo complexas que nunca havíamos pensado e é isso que a torna tão importante para nossa literatura. Sua sensibilidade é admirável, Clarice. 

“... a única verdade é que vivo. Sinceramente, eu vivo. Quem sou? Bem, isso já é demais (...) Perco a consciência, mas não importa, encontro a maior serenidade na alucinação. É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer, porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo.”

                    Perto do Coração Selvagem


"(…) é sempre assim que acontece – quando a gente se revela, os outros começam a nos desconhecer. "   
A Maça no Escuro, p. 186



Ciranda de Pedra

Finalmente li um romance de Fagundes e me surpreendi com a identificação que criei com  Virgínia, uma garota ingênua no início que amadurece com as pelejas que trava durante o tempo. Ela é a garota excluída do grupo de conhecidos, inclusive na casa onde mora existe uma ciranda com anões de pedra, onde a heroína irá refletir sobre sua exclusão. A razão disso descubrimos ao longo da narrativa; uma descoberta impressionante.


 “-Começa hoje mesmo a vida que te resta.”




http://thalyalee.blogspot.com.br/2016/03/happy-day-of-womens-year-two.html



Contato e Pálido Ponto Azul




Carl Sagan foi um cientista e divulgador brilhante que não me canso de citar, tal como a Clarice, sua sensibilidade e percepção nos impressiona a ponto de pensarmos: ele não é humano! Ou será que nós é que não somos? Poderíamos aprender com ele. 

"[...]Desse ponto distante de observação, a Terra talvez não apresentasse nenhum interesse especial. Para nós, no entanto, ela é diferente. Olhem de novo para o ponto. É ali. É a nossa casa. Somos nós. Nesse ponto, todos aqueles que amamos, que conhecemos, de quem já ouvimos falar, todos os seres humanos que já existiram, vivem ou viveram as suas vidas. Toda a nossa mistura de alegria e sofrimento, todas as inúmeras religiões, ideologias e doutrinas econômicas, todos os caçadores e saqueadores, heróis e covardes, criadores e destruidores de civilizações, reis e camponeses, jovens casais apaixonados, pais e mães, todas as crianças, todos os inventores e exploradores, professores de moral, políticos corruptos, "superastros", "líderes supremos", todos os santos e pecadores da história de nossa espécie, ali - num grão de poeira suspenso num raio de sol. A Terra é um palco muito pequeno em uma imensa arena cósmica. [...]"
         Pálido Ponto Azul

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Fahrenheit 451

Um futuro distópico assustador para leitores, intelectuais, pensadores, inconformados... Enfim, para a humanidade que ainda existe em nós. 

http://thalyalee.blogspot.com.br/2016/05/leituras-admiraveis.html


Orgulho e Preconceito

Há algum tempo que vinha adiando a leitura desse clássico de Jane Austen, porém "através de forças sobrenaturais" abri num belo dia o pdf no meu celular e li a primeira frase: "É uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro que possua grande fortuna deve estar à procura de uma esposa”. Me vi sugada rapidamente para a leitura que só foi melhorando palavra por palavra, sentença por sentença.  


Quincas Borba

A continuação de Memórias Póstumas de Brás Cubas com apenas um personagem já conhecido, o filósofo . Ainda prefiro Memórias Póstumas mas a forma como Machado de Assis conta a história dessas pessoas é envolvente. 



No Caminho de Swann


Às vezes minhas decisões de leitura são aleatórias e esse foi o caso do primeiro volume da série Em Busca do Tempo Perdido, que conta com sete livros. E o acaso não significa uma má leitura, já que levei em conta as indicações, e lógico, a escrita poética de Marcel Proust é bela, deliciosa e traz lembranças gostosas do passado. Não é só o protagonista que se lembra de seu passado. A obra é tão envolvente que te leva a adentra nos recônditos de sua própria memória e dela extraí as mais belas poesias. 

“Quando nada subsiste de um passado antigo, depois da morte dos seres, depois da destruição das coisas, sozinhos, mais frágeis porém mais vivazes, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis, o aroma e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, chamando-se, ouvindo, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, levando sem se submeterem, sobre suas gotículas quase impalpáveis, o imenso edifício das recordações.” 



Misto Quente

Charles Bukowski é cru, incisivo e um cirurgião de muitas questões da humanidades. Ele cutuca a ferida e recutuca diversas vezes. O protagonista de Misto Quente sofre de uma náusea existencial que pensando agora, poderia ser uma alusão a A Náusea de Sartre?  


Continuava com a sensação de estar certado por um grande espaço em branco, um vazio. Havia sempre uma sombra de náusea em meu estômago. (p. 88)



1984 e Sono


Minhas últimas leituras do ano se tornaram logo uma das melhores. Enfim fui apresentada à importante distopia 1984. E enfim arranquei os pensamentos mais alucinados e reflexivos, talvez exagero, pois muitas das leituras citadas já fizeram o mesmo, contudo as questões tratadas na obra de Orwell são diversas, o poder da literatura: fazer pensar sobre diversos assuntos.

E Sono de Haruki Murakami não fica por baixo. Não conhecia seu trabalho e posso dizer que iniciei com o "pé direito".  Sono vai nos apresentar uma mulher que não dorme há dezessete dias e que se sente mais viva, com mais tempo, com a mente expandida e que se redescobre, percebendo que a sua rotina a impedia de enxergar o completo.



As Parceiras e Caminhos Cruzados 

Lya Luft me surpreendeu e me traumatizou com a mostra de decadência de uma família, mais especificamente de mulheres amaldiçoadas. Tudo isso passado pelos flashbacks da protagonista que se fecha num antigo casarão da família para pensar.

E em Caminhos Cruzados de Érico Verríssimo, a primeira obra que li dele, vemos vidas diferentes unidas por um mesmo fio: sonhos, traumas, a procura do sentido da vida... Pessoas que ainda não se encontraram.




O Amante de Lady Chatterley

Essa foi uma leitura desafiadora por tratar do tabu, sexo, tão abertamente.

http://thalyalee.blogspot.com.br/2016/05/leituras-desafiadoras.html





Ufa! Foram muitas leituras em 2016, cinquenta no total, no entanto só 19 me marcaram. E para vocês? Como foi 2016? 
Bom, desejo um feliz ano novo e um ano repleto de leituras, descobrimentos, alegrias, festas e muito tempo para que se possa concretizar os seus desejos! 

Até mais!

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